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Como São Nicolau converteu-se em Papai Noel, uma teoria


Jeremy Seal relata a transformação histórica do velhinho cheio de presentes



BATH, sexta-feira, 22 de dezembro de 2005 (ZENIT.org).- A figura moderna de Papai Noel é um pálido reflexo da pessoa que a inspirou: São Nicolau, bispo de Mira, antiga cidade da costa meridional da atual Turquia.

Como se produziu a transformação de santo caritativo em ícone do consumo natalino?

O escritor Jeremy Seal empreendeu uma pesquisa internacional para dar resposta a esta pergunta, e comunicou suas conclusões no livro “Nicholas: The Epic Journey from Saint to Santa Claus” (Nicolau: a viagem épica do santo a Santa Claus), Ed. Bloombury.

Em uma entrevista concedida a ZENIT, Seal relata que encontrou sinais do culto à Papai Noel (Santa Claus) em todo o mundo e os motivos que explicam por que São Nicolau, com seu carisma de caridade, persiste ainda hoje, apesar da comercialização das festas de Natal.

--O que o levou a escrever este livro e até onde chegou para realizar sua pesquisa?

--Este tema atraiu-me graças a minhas duas filhas que, quando comecei a pesquisa, tinham seis e dois anos. São elas as que me recordaram a importância, para as crianças, da figura do Papai Noel.

A história de São Nicolau, logo, suscitou minha curiosidade, também por seu aspecto épico. Sou um escritor viajante, e o fato de que sua evolução póstuma lhe tenha levado a realizar uma viagem excepcional, partindo da Turquia para chegar à Europa, a Manhattan, até o Pólo Norte, foi para mim um forte estímulo.

Logo viajei a todos os lugares associados à vida de São Nicolau.

Comecei na Turquia, em Mira, onde se ergue uma basílica a ele dedicada. Segui seu culto para o Ocidente, em Bari, e para o norte, em Veneza, logo em Amsterdã e outros muitos lugares da Europa. Logo cheguei a Manhattan e posteriormente a Lapônia, ao norte da Finlândia, e à Suécia, junto a minhas filhas, justo no Natal passado.

--Quem era São Nicolau de Mira?

--Sabe-se muito pouco dele. Era bispo de Mira e viveu no século IV, em uma cidade da Turquia meridional, hoje conhecida como Demre. Não há ali atualmente nenhuma referência a sua vida, salvo uma referência material, em um manuscrito do século VI.

Temos então que nos basear quase exclusivamente em elementos póstumos referentes a São Nicolau. Mas, dada a grande difusão de seu culto, é lícito deduzir que houve algo excepcional em sua vida. Não sabemos muito dele, mas intuímos uma pessoa especial.

Nicolau parece ser uma pessoa sensível que se fez famosa por dedicar-se à ajuda material e concreta. Este aspecto manifestou-se firme no curso dos séculos, porque a ajuda material é algo de que todos têm necessidade, e que todos sabem apreciar.

--Quais foram seus aspectos especiais?

--Existe uma série de histórias, também porque foi especialmente longevo. Na época em que viveu, a maior parte dos santos cristãos eram mártires, mas sobre Nicolau se contaram muitas histórias porque viveu uma vida longa, e morreu em sua cama.

Os relatos são muitos, mas a maior parte deles coincide em sua dedicação a ajudar os demais.

Um infinito número de histórias conta que salvou alguns marinheiros, em meio a uma tempestade ante a costa de Mira. Outra vez, convenceu um capitão a que levasse em seu barco uma carga de trigo a Mira, onde as pessoas estavam morrendo de fome.

Alguns militares, condenados injustamente, tiveram uma visão de Nicolau que os confortava e procurava para eles a libertação.

Quando o culto de Nicolau chegou à Rússia, no século XI, nasceu toda uma nova série de histórias. Os russos o chamaram em sua língua “o que ajuda”. Na Rússia, sua ajuda assume formas diversas: ajuda aos pastores a proteger o rebanho dos lobos, protege as casas do fogo, etc.

--Que obstáculos encontrou o culto de São Nicolau ao longo dos séculos?

Há em especial dois elementos: sobretudo, a partir do século VIII, sua terra de origem, o sul da Turquia, estava cada vez mais ameaçada pelos muçulmanos, que não tinham muito interesse em sua figura.

As relíquias de São Nicolau foram tiradas da Turquia em 1087, e levadas a Bari, permitindo a difusão de seu culto no continente europeu. Foi um traslado do mais oportuno, porque haveria sido marginalizado em um futuro país islâmico. Deste modo, seu culto manteve-se, com base na basílica na qual se conservam seus restos.

Em segundo lugar, está a Reforma, que se difundiu na Europa setentrional, nos séculos XVI e XVII, que reduziu muito o significado dos santos. Creio que este obstáculo foi superado justo porque se havia convertido em uma figura que ia mais além da Igreja, havia-se convertido em parte integrante de cada família.

Desde o século XVI, cada 6 de dezembro, Nicolau chegava trazendo presentes às crianças do Norte da Europa, passando através da chaminé. Era uma figura muito popular e muito amada, e isto parece ter-lhe dado a força de resistir durante um período no qual as imagens e as estátuas dos santos eram derrubadas, queimadas e destruídas.

--Como evoluiu a figura atual do Papai Noel?

--O amor a Nicolau manteve vivo seu culto até finais do século XVIII, quando em Manhattan produziu-se uma revisão de sua imagem.

O nome “Santa Claus” (Papai Noel) deriva da pronunciação americana da palavra holandesa “Sinterklass”. São Nicolau e Papai Noel são portanto a mesma pessoa, ainda que muitos não saibam. Por outra parte, são representados de modo diverso porque o representam em lugares e tempos diversos, próprios de sua evolução póstuma.

Não sabemos quando chegou seu culto a Nova Amsterdã, hoje Manhattan. Mas é provável que tenha sido levado ali pelas primeiras comunidades que se assentaram, e tenha ficado como uma vaga memória na América do Norte, latente até finais do século XVIII.

Logo, a tradição dos presentes que até então era uma celebração local e estacional, na qual se intercambiaram objetos feitos em casa, estourou em algo muito maior. Iniciava a produção em massa, difundia-se o comércio, chegaram os jogos do Norte da Europa, e tudo se podia comprar: livros, instrumentos musicais, tecidos, etc.

Por conseguinte, o uso dos presentes se transformou em algo irreconhecível, e isto fez nascer a exigência de encontrar ao espírito da entrega de presentes. São Nicolau era quem, nas tradições holandesas e inglesa do velho mundo, representava o doador; e não era necessário buscar muito para recordá-lo.

As pessoas, ao final do século XVIII, popularizaram a imagem de Santa Claus, ainda que não imediatamente com fins comerciais.

Nos anos vinte, do século XX, começou a adquirir suas características atuais: as renas, o trenó, os sinos. Elementos que são simplesmente característicos do mundo no qual emergiu: naquela época, os trenós eram o meio principal de transporte, no inverno, em Manhattan.

A poesia “A visit from St. Nicholas” (Uma visita de São Nicolau), conhecida também como “Twas The Night Before Christmas” (Era a Visita de Natal), de 1822, descreve-o com todos os detalhes. Era muito similar à figura que conhecemos hoje.

Enquanto estas características tomavam forma, foi associado cada vez mais ao âmbito comercial. Uma instrumentalização compreensível, mas depois de tudo sempre um desvio de seu significado original. Na Idade Média, era símbolo e ícone da caridade. Não me parece que possa ser definido do mesmo modo hoje. Atualmente parece mais uma estranha mescla de caridade e de consumismo que o invade todo.

--Em sua opinião, o que os pais cristãos deveriam contar a seus filhos sobre Papai Noel?

--O que quis fazer ao remontar-me às origens do Papai Noel é recordar a mim mesmo que existe um válido motivo moral para dar presentes. A idéia de São Nicolau era a de ajudar quem passava dificuldades.

Este é o ensinamento que podemos extrair. Dar presentes, pelo gosto apenas de dá-los, a pessoas queridas que têm em abundância, poderia não refletir a essência da intenção de São Nicolau.

Sobre como responder às perguntas das crianças sobre o significado deste nome, não saberia dizer.

Eu sou um ex-anglicano, mas São Nicolau me atrai muito desde o ponto de vista intelectual e moral. Aprecio os importantes valores morais que representa, o sentido de uma caridade ativa.

São Nicolau pode ser apreciado por qualquer um que tenha um mínimo de sentido moral; nenhum sistema de crenças pode estar em desacordo com o que ele representa.

Fala a todos porque, enquanto a Teologia pode ser bastante complexa, suas histórias são simples. Creio que é este o motivo pelo qual foram contadas ao longo de centenas de anos e se transformaram neste rito familiar que celebramos ainda hoje com Papai Noel. ZP05122308




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