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Dom Estêvão Bettencourt
Os Dinossauros e a Bíblia
Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 469 – Ano 2001 – Pág. 249.
Em síntese: A existência dos dinossauros, de que fala a paleontologia, não faz conflito com a mensagem do texto bíblico do Gênesis. Este não tenciona descrever a ordem ou o modo como apareceram as criaturas; não entra em questões de ordem científica ou paleontológica, mas quer afirmar que o mundo, como quer que tenha tido origem, deve sua existência a Deus Criador. Deus é bom e fez boas todas as criaturas; confiou-as ao casal humano, para que, como imagem e semelhança de Deus, leve a termo a obra divina, fazendo que todas as criaturas contribuam para a glória do Criador mediante o sacerdócio do homem.
A Redação de PR recebeu a seguinte mensagem:
“Um dos poucos programas a que tenho coragem de assistir na Rede Globo de televisão é o Fantástico, até por que acho que um cristão não pode ficar por fora das coisas que estão acontecendo no mundo. Uma coisa tem-me deixado intrigado no quadro “Os dinossauros”, exibido no Fantástico. É lógico que nada sei, nada saberei e nada talvez saiba sobre muitas coisas, pois existem coisas que jamais entenderemos.
Mas a pergunta é a seguinte: “O que a Igreja fala sobre a existência dos dinossauros? O senhor não acha que acreditar nos dinossauros é ter que desacreditar na Sagrada Escritura?” Acho muito estranho o livro do Gênesis dizer que Deus fez tudo em sete dias, e que no sétimo descansou, e colocou o homem acima de todas as criaturas.
Como pode ter existido uma era jurássica em que os animais dominaram a terra? Isso não seria contrário às narrativas do hagiógrafo?”
Para mais aguçar o problema, seja transcrita uma notícia de O GLOBO de 23/2/01, p. 30:
“Desde que se formou, há cerca de 4,6 bilhões de anos, a Terra sofreu periódicas extinções em massa. Há 250 milhões de anos (quando a parte emersa da Terra formava apenas um continente, a Pangéia), um acontecimento imprevisto como a queda de um asteróide poderia ter extinguido várias formas de vida primitivas (como répteis, insetos e moluscos). E, mais tarde, favorecido o aparecimento e a adaptação de novas espécies como plantas e dinossauros, que ocupam o planeta durante os períodos triássico, jurássico e cretáceo (entre 250 milhões e 66 milhões de anos atrás)”.
Passemos à elucidação da questão.
EM RESPOSTA
1. Preliminares
Convém, antes do mais, esclarecer os termos em pauta.
Dinossauros eram animais da classe dos répteis, superordem dos Arcossauros. Viveram do período triássico ao cretáceo. O seu tamanho variava entre um pouco mais do que uma galinha até os tipos gigantescos, como foi, por exemplo, diplodoco, com 27m de comprimento e cerca de 30 toneladas de peso.
A era mesozóica é uma das divisões do tempo geológico, situada entre o paleozóico e o cenozóico. Abrange três grandes períodos: o o triássico, o jurássico e o cretáceo. Durou cerca de 160 milhões de anos, estendendo-se de 225 a 65 milhões de anos atrás. Conhecida como a era dos répteis, foi a época em que dominaram os grande sáurios e surgiram os mamíferos e as aves.
Todo este aparato científico não entra em conflito com o texto bíblico, pois este não pretende oferecer uma descrição científica da origem das criaturas, mas tem em vista propor o sentido religioso das mesmas ou o valor que elas têm perante Deus e o homem. Com outras palavras: a Escritura não quer ensinar como vai o céu, mas como se vai para o céu.
Faz-se necessário, portanto, examinar de perto o texto bíblico que propõe a criação do mundo e do homem em seis dias (Gn 1, 1-2, 4a), colocando-o, antes do mais, em seu contexto, que é chamado “a pré-história bíblica”. A pré-história bíblica (Gn 1-11) não se identifica com a pré-história universal, que vai até 8000 a.C. aproximadamente; ela compreende episódios de importância capital que antecederam a vocação do Patriarca Abraão, em 1850 a.C. aproximadamente. É somente com Abraão, em Gn 12, que começa a história bíblica propriamente dita.
Consideremos pois
2. A pré-história bíblica
A secção de Gn 1-11 chama-se “pré-história bíblica” porque se refere a acontecimentos anteriores à história bíblica, que começou com o Patriarca Abraão (séc. XIX ou 1850 a.C.). Por conseguinte, a pré-história bíblica não coincide com a pré-história universal, que vai desde tempos imemoriais até o aparecimento da escrita (8000 a.C.?).
O gênero literário dessa secção é o da história religiosa da humanidade primitiva. O autor sagrado não intencionou propor teses de ciências naturais, mas quis apresentar, em linguagem simbolista, alguns fatos importantes que constituem o fundo de cena e a justificativa da vocação de Abraão. Tais seriam:
1) a criação do mundo bom por parte de Deus, a elevação do homem à filiação divina e a violação dessa ordem inicial pelo pecado (Gn 1, 1-3, 24);
2) o fraticídio de Caim, conseqüência do fato de que o homem abandonou a Deus; perdeu também o amor ao seu semelhante (Gn 4, 1-16);
3) a linhagem dos calnitas, que mostra o alastramento do pecado (Gn 4, 17-24);
4) a linhagem dos setitas ou dos homens retos (Gn 5, 1-32);
5) o dilúvio, provocado pela propagação do pecado (Gn 6, 1-9, 28);
6) a tabela dos setenta povos (Gn 10, 1-32);
7) a torre de Babel, nova expressão do pecado (Gn 11, 1-9);
8) as linhagens dos semitas (Gn 11, 10-26) e dos teraquitas ou descendentes de Terá (11, 27-32), que fazem a ponte até o Patriarca Abraão.
Em síntese:
O mundo, criado bom, Fratricídio Genealogias Dilúvio
é violado pelo pecado (4, 1-16) (4, 17-5. 32) (6-9)
(Gn 1-3)
Tabela Babel Genealogias
(10) (11, 1-9) (11, 10-32)
Desta maneira, o autor mostra que Deus fez o mundo bom e convidou o homem para o consórcio da sua vida (ordem sobrenatural). Todavia o homem disse Não. Deus houve por bem reafirmar seu desígnio de bondade, prometendo restaurar, mediante o Messias, a amizade violada pelo pecado (Gn 3, 15). Este foi-se alastrando cada vez mais, como atestam os episódios de Caim e Abel, do dilúvio e da torre de Babel. Então, para realizar seu intento de reconciliação do homem com Deus, o Criador quis chamar Abraão para constituir a linhagem portadora da fé e da esperança messiânicas. Assim chegamos a Gn 12 (a vocação de Abraão).
Passemos agora à consideração do bloco inicial dito hexaémeron ou “obra dos seis dias”.
3. O hexaémeron (Gn 1, 1-2, 4a)¹
O conjunto Gn 1-3 não é unitário, mas consta de duas narrações: Gn 1, 1-2, 4a, a obra dos seis dias (hexaémeron, em grego), da fonte P (século V a.C.), e Gn 2, 4b-3, 24, da fonte J (séc. X a.C.)². Isto se deduz do estilo e do vocabulário próprios de cada uma dessas secções como também do fato seguinte: em Gn 2, 1-4a o mundo está terminado, o homem e a mulher foram criados; todavia, em Gn 2, 4b.5, o autor sagrado afirma que não havia arbusto, nem erva, nem chuva, nem homem, e narra a criação do homem a partir do barro como se ignorasse a criação já narrada em Gn 1, 27).
Se, pois, há duas peças literárias justapostas em Gn 1, 1-3, 24, é preciso estudar cada uma de per si, pois cada qual tem sua mentalidade e sua mensagem próprias. Comecemos pelo hexaémeron (Gn 1, 1-2, 4a).
Para poder depreender a mensagem deste trecho bíblico, precisamos, antes do mais, de observar a sua forma literária.
Ora verifica-se que tal peça apresenta um cunho fortemente artificioso: após a introdução (1, 1s), o autor descreve uma semana de seis dias de trabalho e um de repouso; os dias de trabalho poderiam dispor-se em duas séries paralelas, das quais a primeira trata da criação das regiões do mundo e a segunda aborda a povoação dessas regiões, como se vê abaixo:
1º dia: Luz e Trevas 1, 3-5
2º dia: águas e firmamento 1, 6-8
3º dia: continentes, vegetação e mares 1, 9-13
4º dia: Astros 1, 14-19
5º dia: Peixes e voláteis 1, 20-23
6º dia: Animais terrestres e Homem 1, 24-31
7º dia: repouso 2, 1-4
Notemos também que cada um dos dias da criação é descrito segundo fórmulas que se repetem e que constituem estrofes de um hino litúrgico:
“Deus disse...E houve... E assim se fez... E Deus chamou... E Deus viu que era bom... Deus fez... Deus abençoou... Houve tarde e manhã... dia”.
A imagem do mundo pressuposta pelo autor é bem diferente da nossa; haveria a região dos ares, a das águas e a da terra. Esta seria uma mesa plana, pousada sobre colunas; debaixo da terra haveria as águas, donde emergem as fontes, e também a região dos mortos ou o cheol. A luz era concebida como algo independente do sol e das estrelas, pois mesmo nos dias em que o sol não brilha, temos luz (por isto a luz é criada no 1º dia, ao passo que os astros no 4º dia). A vegetação seria o tapete inerente à terra; por isto terá sido criada no 3º dia, anteriormente ao sol. – Tais concepções podem parecer irrisórias ao leitor moderno; notemos, porém, que elas não são objeto de afirmação da parte do autor sagrado; o autor se refere a elas tão somente para propor uma mensagem religiosa a respeito do mundo e do homem, sem tencionar definir algum sistema de cosmologia.
Pergunta-se, pois: qual a mensagem de Gn 1, 1-2, 4a?
4. A mensagem do hexaémeron
Três são as finalidades do texto em foco:
1) Antes do mais, o texto quer incutir a lei do repouso do sétimo dia (sábado). Com efeito, imaginemos um grupo de sacerdotes recebendo fiéis judeus para celebrarem o culto do sábado¹; era óbvio que explicassem a esses fiéis o porquê daquela assembléia e do repouso do sétimo dia. Conceberam então um hino litúrgico, no qual Deus é apresentado a trabalhar no quadro de seis dias úteis e a repousar no sétimo dia; em vez de fabricar mesas ou cadeiras, como o homem, o Senhor Deus terá fabricado o mundo. O importante, porém, é que nesse hino Deus observa o repouso do sétimo dia. Esse exemplo imaginário do Senhor seria a melhor recomendação da lei do sábado; o homem deveria, pois, trabalhar em seis dias e no sétimo dia afastar-se do trabalho para, no repouso, elevar mais detidamente o seu espírito a Deus. O exemplo divino é evocado em Ex 20,11. Deve-se notar, porém, que a lei do sábado é anterior ao texto do hexaémeron (séc. V a.C.); ela decorre do ritmo natural da Lua, muito importante para os trabalhadores rurais (de sete em sete dias a Luz passa de nova para crescente, de crescente para cheia...). Por conseguinte, Deus repousa poeticamente por causa do ritmo da semana do homem, e não vice-versa.
Alguns perguntarão: o cristão não deveria então observar o sábado assim incutido? – A propósito lembramos que a palavra sábado vem de shabbath. A Bíblia prescreve o repouso do sétimo dia (cf. Ex 20, 8-11) sem definir qual deva ser o primeiro dia da semana. Ora os cristãos sabem que Jesus ressuscitou no dia seguinte ao sétimo dia (sábado) dos judeus; por isto começaram a contar os dias da semana no segundo dia (ou na segunda-feira) dos judeus para fazer o sétimo dia coincidir com o dia da ressurreição de Jesus. Assim fazendo, os cristãos observam todo sétimo dia (sábado); não é a materialidade do nome sábado que importa, mas é a observância de todo sétimo dia; o domingo dos cristãos vem a ser o sábado (sétimo e repouso) dos cristãos.
2) Os autores sagrados quiseram também relacionar o mundo todo (como os hebreus o podiam conhecer) com Deus, mostrando que tudo é criatura de Deus e, por conseguinte, não há muitos deuses. Com outras palavras, estas são as verdades teológicas que o hexaémeron nos transmite:
a) Deus é um só. Não há, pois, astros sagrados (como os caldeus da terra de Abraão admitiam). Nem há bosques sagrados (como os cananeus da nova terra de Abraão professavam). Nem há animais sagrados (como os egípcios, entre os quais viveu Israel, professavam).
b) Deus é bom e, por isto, fez o mundo muito bom. Se há mal no mundo, não vem de Deus, mas do homem (como explica o relato de Gn 3). Os autores assim rejeitavam toda forma de dualismo ou de repúdio à matéria como se fosse essencialmente má.
c) O mundo não é eterno, mas foi criado por Deus e começou a existir. Afirmando isto, o texto sagrado não tenciona dirimir a questão “fixismo ou evolucionismo?”, mas apenas assevera que a matéria e o espírito têm origem por um ato criador de Deus; qualquer teoria científica que admita isto, é aceitável aos olhos da fé.
d) O homem é o lugar-tenente (imagem e semelhança) de Deus, não por sua corporeidade (Deus não tem corpo), mas por sua alma espiritual, dotada de inteligência e vontade. Tenhamos em vista o relevo que o autor dá à criação do homem: quebrando o esquema habitual, o texto refere as palavras de Deus: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança...” (Façamos é um plural intensivo, que põe em relevo a grandeza do sujeito falante). Note-se, aliás, que não há origem diversa, neste texto, para o homem e para a mulher, mas ambos surgem simultaneamente.
e) O casamento é abençoado por Deus, tornando-se uma instituição natural, que não depende dos deuses da fecundidade admitidos fora do povo bíblico.
f) O trabalho do homem é continuação da obra de Deus; é santo, qualquer que seja a sua modalidade, desde que executado em consonância com o plano do Criador.
De maneira geral, pode-se dizer que toda a tendência do hexaémeron é apresentar o homem como mediador entre o mundo inferior e Deus; esse mediador exerce, por sua posição e sua atividade na terra, um sacerdócio ou a missão de fazer que todas as criaturas irracionais, devidamente utilizadas pelo trabalho do homem, dêem glória ao Criador. É o que o esquema abaixo ilustra:
DEUS
an. terrestres HM
6º dia
peixes e voláteis
5º dia
astros
4º dia
terra
3º dia
águas
2º dia
ares
1º dia
3) Pode-se também dizer que o autor sagrado, utilizando o esquema 6 + 1 = 7, quer realçar a índole boa da obra de Deus. Sete é, sim, um símbolo de perfeição conforme os antigos; essa índole é enfatizada pelo fato de se pôr em evidência a sétima unidade (há seis dias de trabalho, homogêneos entre si, e um último, o sétimo, de índole diferente).
Estes ensinamentos, como se vê, não pretendem dirimir questões de ciências naturais. Podem parecer pobres aos olhos de quem procura na Bíblia uma resposta para indagações de astronomia, cosmologia, geologia, botânica, zoologia... Todavia, são de enorme valor, pois nenhum povo anterior a Cristo, fora Israel, chegou a tão sublime conceito de Deus e de origem do mundo. O Deus da Bíblia é o Senhor único que, com sua onipotência, domina a natureza; por conseguinte, tudo produz a partir do nada ou por sua vontade criadora. Aliás, o verbo bará (= fez), ocorrente em Gn 1, 1, é sempre usado na Bíblia para indicar a ação prodigiosa e singular de Deus; cf. Is 48, 7; 45, 18; Jr 31, 22; Sl 50(51), 12; 103(104), 30...
Resta ainda observar que os dias do hexaémeron não significam eras ou períodos geológicos. No século passado, quando as ciências naturais mostraram claramente que o mundo não pode ter surgido em seis dias de 24 horas, muitos autores julgaram que os dias de Gn 1 eram períodos longos correspondentes aos da formação do globo terrestre (era azóica, primária, secundária...). Assim a Bíblia teria antecipadamente descrito a origem do mundo, que só a ciência do século XIX conseguiu averiguar! Tal atitude chama-se “concordismo”, porque tenciona obter concórdia (ainda que forçada) entre a Bíblia e as ciências, como se visassem ao mesmo objetivo de narrar os fenômenos físicos da origem do mundo. O concordismo é errôneo por causa deste seu pressuposto. O autor sagrado não tinha as preocupações de um cientista; não queria senão oferecer um ensinamento religioso tal como acabamos de enunciar; por isto ele tinha em mira dias de 24 horas (nos quais houve tarde e manhã, cf. 1, 5.8.13.19.23.31); em outras palavras: ele imaginou uma semana como a nossa, mas uma semana que nunca existiu,... a semana na qual Deus, como primeiro trabalhador, teria fabricado o mundo.
À guisa de complemento, analisaremos, a seguir, o segundo relato da criação ou o texto de Gn 2, 4b-25.
¹ 4a= a primeira parte do versículo 4; 4b = a segunda parte.
² O Pentateuco (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt) consta de quatro fontes ou é um aglomerado de quatro documentos de épocas diversas, que se foram aglutinando: o J (avista), o E (loísta), o D (euteronômico) e o S (acerdotal). Há segmentos do Pentateuco de caráter javista, outros de caráter eloísta, outros de índole deuteronômica e outros de têmpera sacerdotal.
¹ Sabemos que o hexaémeron é do Código S ou tem origem em ambientes de sacerdotes.
Data Publicação: 09/01/2008
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