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A moralidade do Antigo Testamento


D. Estevão Bettencourt, osb

OS DESMANDOS DA CRIANÇA

Não se chegaria a satisfatório entendimento do Antigo Testamento se não se considerassem de per si os principais temas de “escândalo” moral que ele apresenta. É o que se fará no presente capítulo.

§ 1º A LEI DO TALIÃO

Como se sabe, o código legislativo de Moisés mandava que o dano causado ao próximo fosse reparado pela imposição de semelhante prejuízo ao delinqüente. É esta a famosa lei do talião1, que assim se formulava:

“Darás vida por vida,
olho por olho,
dente por dente,
mão por mão,
pé por pé,
queimadura por queimadura,
ferimento por ferimento,
contusão por contusão” 2

Tal norma inegavelmente visava a instaurar justiça, e justiça perfeita, incutindo um desagravo equivalente ao agravo. É este, aliás, o efeito que todo processo judiciário tem em vista: restabelecer o mais exatamente possível a ordem violada. Há, porém, maneiras diversas de executar este princípio: o modo mais simples consiste, sem dúvida, em exigir do culpado o mesmo objeto materialmente entendido. Todavia esta forma de reparação, embora pareça por excelência garantir a justiça, não raro pode ferir a eqüidade; com efeito, a lei do talião não leva em conta as circunstâncias capazes de atenuar a culpabilidade do delinqüente e, por conseguinte, mitigar o rigor da pena a ser imposta. A lei do talião muito aproxima o homem do autômato, da máquina, não dando suficiente atenção à dignidade espiritual do réu, que deve ser julgado primariamente conforme a sua consciência. Além do mais, a natureza espiritual e material do homem exige que as sanções infligidas a este não sejam de ordem meramente material, mas incluam também uma pena de índole moral, pena que afete o homem diretamente na sua qualidade de ser inteligente.

Se assim é, pergunta-se: como pôde a lei do talião entrar no código legislativo do povo de Deus ?

Antes do mais, considere-se que tal maneira de punir era de uso mais ou menos geral entre os povos do antigo Oriente. Assim o código babilônico dito do rei Hamurapi (depois de 1700 a.C.), bem anterior à Lei mosaica (1240 a.C.), prescrevia :

“Olho vazado por olho vazado”. (Art. 196)
“Membro quebrado por membro quebrado”. (Art. 197)
“Dente espedaçado por dente espedaçado”. (Art. 200)
“Boi por boi, carneiro por carneiro”. (Art. 263)
“Morte ao arquiteto de uma casa que desmorone sobre o proprietário”. (Cf. art. 229)
“Morte ao filho do arquiteto, se a casa cai sobre o filho do proprietário”. (Cf. art. 230)

Normas análogas encontram-se na legislação de Atenas promulgada por Solon (+ ca. de 559), assim como no Direito Romano.

E por que eram tão comuns esses princípios ?

A sua difusão se explica por corresponderem bem ao grau de civilização primitiva do homem antigo. Simplificavam a aplicação da justiça, dispensando de muitas ponderações, que são coisa familiar ao homem culto. Além disto, mostrando de antemão a pena do delinqüente, impunham facilmente temor, o que, para indivíduos rudes, era freio mais eficaz do que motivos de ordem moral. Ademais, eram aptos a reprimir pretensões exageradas da pessoa que tendesse a explorar a sua situação de vítima.

Por estes títulos se vê que o talião era oportuno entre os povos primitivos (se não o fosse realmente, não se explicaria uso tão generalizado).

Com o progresso, porém, da cultura, os antigos pagãos foram percebendo o grau imperfeito da retribuição pelo talião. Consequentemente, admitiam que o criminoso pagasse indenização monetária, caso nisto consentisse a vítima.3

Ora a todo este processo de evolução o próprio Deus se quis acomodar na educação do seu povo. Já antes de receberem a lei teocrática, os filhos de Israel praticavam o talião, em meio a nações para quem tal praxe era de todo normal. Pois bem, ao promulgar a Magna Carta de Israel, o Senhor se dignou respeitar a tradição da sua gente; haveria de reformá-la, sim, mas aos poucos. Com efeito, os historiadores extrabíblicos referem que, entre os judeus próximos à era cristã, o talião podia ser substituído pela indenização pecuniária.4 Por fim, o Messias, rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento, aboliu de todo a prática, aconselhando mesmo aos discípulos quer perdoassem gratuitamente a quem os ofendesse (cf. Mt. 5, 38-42, 21-15).

Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo ...

“Quem pratica a misericórdia, obterá misericórdia”. (Cf. Mt 5, 7) “Quem não julga, não será julgado; cada qual será julgado conforme tiver ele mesmo julgado; de modo geral, a cada um será aplicada a medida que ele tiver aplicado ao próximo.” (Cf. Mt 7, 1s; Mc 4, 24; Lc 6, 37s)

Eis as normas que, visando o homem como imagem de Deus, tendem a refrear as paixões do indivíduo e torná-lo cada vez mais semelhante ao Exemplar Divino.5 Não teriam sido, porém, inteligíveis aos homens do Antigo Testamento.

Com a prática do talião estão estreitamente ligados dois outros usos: o herém (extermínio dos inimigos) e as imprecações.

§ 2º O EXTERMÍNIO DOS INIMIGOS

Muito menos polido que hoje era outrora o direito de guerra ... No Oriente, ao povo vencedor reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos, mesmo de mulheres e crianças; felizes se poderiam considerar aqueles que, derrotados na guerra, fossem apenas despojados de seus bens e reduzidos à escravidão! Tal praxe era chamada o herém (anátema).

1. É muito importante notar que o herém se baseava não somente num grau de cultura pouco evoluída, mas também numa concepção religiosa para nós estranha: cada povo julgava que, na guerra, a honra dos seus deuses estava em jogo; uma derrota militar seria escárnio para os deuses da nação vencida, assim como a vitória significaria triunfo da Divindade. Por conseguinte, aos deuses do vencedor julgavam que deviam ser religiosamente imolados, por um ato de extermínio total, os homens, as famílias, as cidades, os haveres, do povo vencido.6

O uso, aliás, era tão comum que não somente os semitas, mas até os germanos o praticavam, segundo o testemunho de Tácito:

“Victores diversam aciem Marti ac Mercurio sacravere, quo voto equi, viri, cuncta victa occisioni dantur. – Os vencedores devotaram a Marte e Mercúrio o acampamento inimigo, voto este em virtude do qual são entregues ao extermínio cavalos, homens e tudo que pertence aos vencidos”.7

Ora tal praxe, familiar aos antigos, 8 foi também respeitada por Deus nas suas relações com Israel; a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida ... Deve-se mesmo dizer que, para os hebreus, o herém se tornava particularmente necessário e imperioso; este povo, e ele só, possuía a verdadeira fé, para um dia transmiti-la ao mundo; por conseguinte, era de sumo interesse na história sagrada que Israel não corrompesse a sua religião. Todavia, a fim de manter incontaminada a crença de Israel, não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus dentre os demais povos; a experiência mais de uma vez comprovou que, ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra, os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas.9 Em conseqüência, era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém e o sancionasse, a fim de se precaverem danos religiosos (repita-se; a fidelidade dos filhos de Abraão ao verdadeiro Deus era, na história, um valor insubstituível, que não podia ficar exposto a risco nenhum).10

Apoiando-se nestas idéias, eis como o legislador sagrado incutia o herém a Israel: “Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus te há de dar como herança, nelas não deixarás a vida a indivíduo nenhum que respire. Entregarás esses povos ao anátema: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus, como o Senhor teu Deus te mandou, a fim de que não vos ensinem a imitar todas as abominações que eles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus”. (Dt. 20, 16-18; cf. 7, 2-4).

2. Procuremos explicitar melhor o que a concepção acima exposta acarretava para os homens do Antigo Testamento.

O fato de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo inteiramente idólatra, fazia com que a sorte desse povo viesse a ser nada menos que a do reino de Deus em meio ao reino do erro e do pecado. Em outros termos: já que o Senhor decretara realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel, os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do reino de Deus; inversamente, os triunfos dos pagãos seriam triunfos daquele que, em última análise, fomenta a idolatria, é o mentor da vida dos pagãos – Satanás.

Dentro da mentalidade do Antigo Testamento, portanto, podia-se com toda a razão dizer que o reino das trevas triunfava sobre o reino da luz cada vez que Israel sucumbia na guerra; nessas ocasiões o Príncipe deste mundo parecia pôr em perigo a causa mesiânica, a salvação do gênero humano. Eis por que os hebreus diziam que os inimigos de Israel eram os inimigos de Javé e vice-versa;11 ... que as suas guerras eram “as guerras de Javé” (cf. Êx 17,16) ou que “Javé combatia em favor de Israel” (cf. Js 10, 14,42). Eis igualmente por que se afirmava, segundo um modo de falar típico dos israelitas, que Deus mesmo inculca o herém (cf. Js 10,40)12 e, caso este não fosse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham de se aproveitar dos bens alheios), puniria os próprios judeus.13

O conceito de que as guerras de Israel eram ato religioso explica outrossim as prescrições de pureza impostas aos guerreiros hebreus: era excluído do acampamento militar todo homem que tivesse tido relações conjugais ou contraído imundície legal por acidente ou por toque de cadáveres. O guerreiro era um homem santificado, consagrado ao serviço de Deus:

“O Senhor teu Deus caminha em meio do teu acampamento, para te proteger e entregar diante de ti os teus inimigos; teu acampamento, portanto, deve ser santo, a fim de que Ele não encontre em ti algo de indigno e se afaste de ti”. (Dt 23, 15; cf. Nm 31, 19-24; 1Sm 21, 6; 2Sm 11, 11).

Verdade é que outros povos antigos guardavam semelhantes normas de pureza na guerra. As observâncias podem Ter sido comuns a muitas nações; a mentalidade, porém, que as animava em Israel, era de todo própria (monoteísta); cf. págs. 136s.

A consciência de que os feitos belicosos de Israel eram obra religiosa aparece claramente no livro de Ester: o conflito entre judeus e persas que este opúsculo descreve se originou do fato de que Mardoqueu, israelita, se recusou a prestar homenagem (fazer genuflexão) a Amã, primeiro ministro do rei da Pérsia, homenagem que tinha significado religioso; em conseqüência disto, o povo eleito passou a ser perseguido. Ora foi dessa opressão – meramente política em aparência, no fundo, porém, estritamente religiosa – que a chama javista de Israel procurou-se libertar, e de fato se libertou.

3. Ulterior observação se impõe: embora a legislação de Israel reconhecesse o herém, ela o abrandava assaz, em confronto com o que faziam os outros povos.14 Assim, tolerando o herém, mas um herém mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento.15 Eis alguns testemunhos:

a) o Deuteronômio muito insiste na humanização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que, na campanha de conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não cananéia, o povo eleito procure reduzir os seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversário obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças;16

b) a mulher não cananéia feita prisioneira de guerra podia ser tomada como esposa de um israelita, que a trataria com todo o carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (cf. Dt 21, 1-14).

Dois episódios da história sagrada, um do período dos Juízes (cf. Jz 21, 13) e o outro do reinado de Davi (cf. 2Sm 20, 14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entraram em acordo com inimigos não cananeus. Houve também homens do povo de Deus que espontaneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exemplo: conforme 2Sm 8,2. Davi, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar apenas a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte ...! É o que explica que, em 1Rs 20,31, os sírios reconheçam a clemência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Benhadad, vencido por Acab:

“Ouvimos que os reis da casa de Israel são reis clementes. Permite que nos revistamos de sacos sobre os rins e cordas sobre as cabeças,17 e que vamos Ter com o rei de Israel; talvez te poupe a vida”.

4. Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do herém, por vezes se deixavam levar não pelo zelo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jéu: este General foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a casa de Acab, rei iníquo seu antecessor (cf. 1Rs 9, 2-10); Jeú o fez realmente, mas, embora intencionasse zelar pelos interesses de Javé, cedeu à crueldade horrorosa (cf. 2Rs 10, 1-17) ... Ora o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oséias (cf. Os 1,4s), Este episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere Ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.

Também Davi parece Ter-se deixado arrastar a excesso no episódio relatado em 1Sm 27, 8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca de Israel se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benevolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenaria ao anátema (cf. 1Sm 15,3); os gessurianos e os gezrianos, que eram provavelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquís e, temendo controle ou represálias da parte deste, dizia-lhe Ter feito expedições na regiões do negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e a seus aliados. Tais depredações procediam realmente de zelo religioso ? E a mentira subsequente que as encobria, poderia ser justificada ?

De resto, a Sagrada Escritura fornece indício de que os freqüentes derramamentos de sangue por Davi cometidos não sempre corresponderam ao plano divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o templo de Javé em Jerusalém, recebeu do Senhor formal recusa, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o templo, santuário da paz, fosse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (cf. 1Cr 22, 8-10; 28.3).

5. Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia com que fosse o herém praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Dt 13, 13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fratricida contra a tribo de Benjamim (Jz 20, 1-48; 21, 1-14). À medida, porém, que se ia elevando o nível cultural e moral de Israel, abrandava-se a praxe do herém entre conacionais; assim na época de Esdras (séc. V/IV), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e a sua exclusão das assembléias do povo (Esd 10,8).

6. Ainda outro elemento deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas do Antigo Testamento : é a mentalidade do clã ou coletivista. Entre os antigos de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não somente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isto se explica, em grande parte, pelo gênero de vida nômade que levavam que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter gregário ou coletivista à vista do clã, fazendo com que o indivíduo como tal desapareça na engrenagem do todo. Ademais na vida nômade é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vezes na antigüidade que os fatores da história não são “este” e “aquele indivíduo”, mas “este” e, “aquele clã”.18

Ora este modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeitos, todo o grupo respectivo se julgava atingido; por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a coletividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os freqüentes choques de tribo contra tribo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também esse o motivo por que muitas vezes os filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por um legislador condenados à maldição.19

A história sagrada apresenta disto um exemplo assaz significativo em 1 Sm 15, 1-3: Samuel manda a Saul que extermine os amalecitas – homens, mulheres, crianças – e todo o seu gado, porque em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia já mais de dois séculos, se tinham oposto à passagem do povo de Deus (cf. Êx. 17, 8-13; Nm 14, 45; Jz 3, 13; 6,3): Moisés, em conseqüência, os tinha condenado a completo e extermínio (cf. Dt 25, 17-19; Nm 24,20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos!20

Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também esse modo de ver imperfeito. Acontecia no séc. VI que os judeus, punidos por guerras e deportações, se queixavam de que seus pais haviam comido uvas amargas e os entes dos filhos sofriam em conseqüência (cf. Ez 18, 2; Jr. 31, 29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipocritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou explicitamente negar a veracidade do pressuposto:

“Eis que todas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha: a alma que pecar, essa morrerá”. (Ez 18, 4; cf. Jr 31,30).

Assim mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional ...

§ 3º AS IMPRECAÇÕES

Ocorrem no Antigo Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja o mal àqueles que o angustiam. São frases que, à primeira leitura, parecem aptas a ofender a consciência do cristão e pedem um esclarecimento exegético.

Dentre essas fórmulas, não se negará que algumas sejam expressão da paixão desregrada; acham-se simplesmente citadas ou consignadas, como ditos alheios, pelo hagiógrafo, não, porém, aprovadas nem propostas pelo Espírito Santo qual modelo de sentimentos do homem de Deus. O contexto indica quais sejam tais imprecações pecaminosas (cf., por exemplo, 1Sm 22, 16; Sl 39, 16; 40, 6-10).

Muitas, porém, das imprecações do Antigo Testamento, mormente do saltério, não são de modo nenhum condenáveis; têm significado bom, até hoje válido.

Para entendê-las, será preciso considerar que procedem de um ânimo intimamente unido a Deus, ... por mais estranho que isto pareça. Em verdade os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, não o costumavam fazer a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas advogavam os interesses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou implicitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser os adversários do próprio Deus.21 Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos termos com que os antigos orientais, dotados de ânimo férvido costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a toda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína.

Isto mais ainda se compreende se se leva em conta que os hagiógrafos não costumavam fazer distinção explícita entre a pessoa que praticava o mal e o mal por ela cometido; já que, na realidade cotidiana, a injúria se nos depara geralmente associada a determinado indivíduo que lhe dá origem, o autor sagrado, desejando a extinção das injúrias (o que em si é coisa ótima), envolvia na sua fórmula imprecatória a pessoa mesma injuriante (o que não quer dizer que desejasse mal a esta como tal). É dessa situação psicológica que resulta o modo de falar surpreendente das imprecações bíblicas.

Quanto aos termos com que se acham formuladas, convém frisar que pertencem ao vocabulário oriental, tendente às hipérboles à ênfase. São muitas vezes tirados diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de outrora. É o que dá tanta vivacidade – dir-se-ia mesmo: crueldade – às frases imprecatórias. Para se perceber a verdadeiramente do autor sagrado, será preciso descontar o que tais fórmulas possam ter de hiperbólico e convencional.

À luz destas considerações, o leitor da Bíblia verá nas imprecações (em particular, nos salmos imprecatórios) a expressão do desejo de que justiça seja feita, os abusos coibidos; entendê-las-á como fórmulas dirigidas contra os males e o Mal, não contra os maus; transportar-se-á, em suma, para um plano todo impessoal.

Para o cristão, pois, mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. Não há dúvida, o discípulo de Jesus tem por lei “amar os inimigos, orar pelos que o perseguem” (cf. Mt 5, 39,44). Sem, porém, derrogar ao amor dos homens, ele pode, e deve, devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás; deve desejar a extirpação completa deste potentado e dos seus baluartes, baluartes que, em parte, são as tendências desregradas da própria natureza humana, em parte são tudo que há de mal disseminado em torno de nós. Que o cristão, pois, reze os salmos imprecatórios, tendo em vista os vícios e as instituições hodiermas inimigas do reino de Cristo, todas as instituições e seitas que se esforçam por disseminar o erro e o pecado no mundo. E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios, do íntimo do coração, com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo.

§ 4º POLIGAMIA, DIVÓRCIO E INCESTO

a) Poligamia

O matrimônio, quando pela primeira vez aparece na história sagrada, é união monogâmica; o Criador mesmo o instituiu e abençoou, subtraindo-o ao plano de simples função da natureza para lhe dar valor religioso (cf. Gn, 1, 28; 2, 23s). Por isto, o contrato entre marido e esposa é, nos livros posteriores da Sagrada Escritura, chamado “aliança de Deus” (Pr 2,17), aliança “da qual o Senhor é testemunha” (cf. Ml 2,14).22

Visto ser “aliança de Deus”, o matrimônio – e, note-se bem, o matrimônio monogâmico – é, principalmente nos escritos dos Profetas, apresentado como figura da união de Deus – que faz as vezes de Esposo – com seu povo – que se comporta como esposa. Vejam-se Os 1,2;2, 21.s; 3,3; Is 50, 1; 54, 5s.; 62, 5; Jr 2,2; 3, 1-4.23 O livro que por excelência apregoa a santidade da vida conjugal, o livro de Tobias, se refere ao contrato de um jovem com uma donzela (Sara).

O primeiro caso de bigamia que a Sagrada Escritura registrada verifica-se na família de Lameque (cf. Gn 4,19). Este é o sexto membro da linhagem de Caim, caracterizada pela corrupção (o que já por si torna suspeita a novidade dos matrimônios de Lameque). Ora, referindo o episódio, o hagiógrafo indiretamente condena o bígamo, pois frisa a índole sanguinária e vingativa que o Patriarca manifesta em versos às duas esposas:

“Adá e Selá, ouvi minha voz,
Mulheres de Lameque, escutai minha palavra;
Matei um homem em troca de um ferimento recebido,
E um jovem em compensação de uma contusão.
Caim será vingado sete vezes,
Lameque, porém, setenta e sete vezes”. (Gn 4, 23s)

Quando, pois, a bigamia é introduzida na Escritura, o autor sagrado lhe atribui uma nota pejorativa. A linhagem dos setitas, fiéis a Deus (Gn 5, 1-32), assim como Noé, o justo salvo das águas (Gn 6-9), são monogâmicos. Precisamente o que caracteriza a corrupção antes do dilúvio é o irrefreado comércio matrimonial, talvez a poligamia (cf. Gn 6, 1-4).

De Abraão (ca. De 1800 a.C.; cf. Gn 12) em diante, porém, os homens, mesmo piedosos, têm freqüentemente (dir-se-ia : normalmente) mais de uma esposa.24 A praxe da poligamia foi finalmente reconhecida pela Lei mosaica em 1240 (cf. Dt 17, 17; 21, 15; Lv 18,18). Este dispositivo da Torá se explica por um ato de tolerância divina. À legislação matrimonial de Israel podem-se aplicar em globo as palavras de Jesus:

“Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés o permitiu: a princípio, porém, não era assim”. (Mt 19,8)

Com efeito, no decorrer dos tempos a poligamia se tornara comum no antigo Oriente.25 Os hebreus, por conseguinte, eram, já pelo seu âmbito de vida, inclinados a seguir tal praxe. Ademais julgavam encontrar em sua concepção religiosa um estímulo possante para não se afastar do uso geral: os descendentes de Abraão estimavam, sim, que prole numerosa era sinal de bênção divina (pois, próxima ou remotamente, agregava o pai de família à linhagem do Messias), ao passo que esterilidade eqüivalia a maldição (cf. Is 63, 9 e Os 9, 14; Lc 1,25). Entende-se então que, no caso de ser infecunda a esposa, o varão hebreu procurasse unir-se a outra, a uma mulher livre ou a escrava da sua consorte (a prole da escrava era considerada pertencente à patroa).26

A largura tolerante de que assim dava provas a Lei mosaica era de certo modo compensada por restrições que a mesma formulava a respeito do uso do matrimônio; enumerava, sim, estados ou fases de “impureza legal” (os períodos de menstruação, doenças, etc.), nos quais os cônjuges eram obrigados a se abster do comércio matrimonial.27 É verdade que também outros povos conheciam tais restrições ou estados de “impureza”; todavia Moisés, ao sancioná-las oficialmente para Israel, queria levantar a mente do povo a um ideal que os pagãos estavam longe de conceber; reconhecendo usos comuns dos antigos povos, o Legislador hebreu lhes atribuía um significado mais nobre, apto a corrigir a dureza de coração da sua gente: deveriam ser observados em virtude de uma aspiração à pureza moral, interior, ou à santidade:

“Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo e não vos tornareis impuros” (Lv 11,44), eis o que o Senhor recomendava após discriminar as impurezas legais.

Referindo-se a este texto bíblico, comenta Clamer :

“Tais prescrições (restritivas do matrimônio) ... não implicavam necessariamente superstição degradante: o freio religioso sendo quase o único que impusesse respeito, o instinto racional mesmo sabia utilizá-lo para se defender contra os ímpetos do instinto animal; nos períodos mais perigosos da menstruação ou do parte, a mulher era colocada sob a tutela de um interdito religioso. Aliás, qualquer que tenha sido a origem dos costumes tradicionais promulgados pelo código mosaico, não será preciso dizer que, quando foram inseridos na legislação de Israel, já ninguém mais sabia o seu significado originário. Sendo expressão da vontade de Deus, esses usos tradicionais visavam assegurar a santidade do povo de Deus: “Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo, diz o Senhor, e não vos tornareis impuros” (Lv 11,44).28

Na plenitude dos tempos, pelo Evangelho, a poligamia seria removida dos usos do povo de Deus, cedendo o lugar à monogamia inicial (cf. Mt 19, 4-6).

b) Divórcio

Eis outro elemento da antiga Lei que causa surpresa ao cristão : a praxe do divórcio. Antes do mais, é importante notar que os textos bíblicos referentes ao divórcio não o instituem em Israel (como não instituem a poligamia), mas, supondo-o já em vigor, determinam as formalidades necessárias para o tornar legal e diminuir a sua freqüência.

Exigia, sim, a Lei mosaica motivo serio – houvesse “algo de repugnante” na mulher – para que o marido a pudesse repudiar (cf. Dt 24,1). Tal exigência não ocorria, por exemplo, no Código de Hamurapi, o qual simplesmente rezava :

“Se um homem estiver disposto a repudiar uma concubina que lhe tiver procriado filhos, ou uma esposa que lhe tiver procriado filhos, ele restituirá a essa mulher o seu cheriqton (espécie de dote)...” (Art. 137).

Além disto, a Lei mosaica só ao marido reconhecia a iniciativa do divórcio; a mulher jamais a podia tomar. Também esta cláusula restritiva não figurava no Código de Hamurapi, onde se lêem diversos motivos para que a mulher repudie o esposo; eis um entre outros artigos babilônicos:

“Se uma esposa é boa dona de casa, irrepreensível, e se o marido sai e muito a negligencia, essa mulher não tem culpa; pode tomar o seu cheriqton e ir-se para a casa de seu pai”. (Art. 142)

Mais ainda: a legislação israelita permitia, sim, que a mulher repudiada contraísse novas núpcias; caso, porém, se casasse de novo, o seu primeiro marido nunca mais a poderia retomar por esposa (cf. Dt 24, 1-4; Jr 3,1). Também este dispositivo visava a restringir os divórcios, admoestando o marido a que não se separasse sem reflexão prévia. Fora de Israel, entre os árabes, por exemplo, o Corã permite que a mulher repudiada seja de novo recebida pelo marido, caso haja entrementes vivido com outro homem (condição justamente contrária à legislação mosaica)!

Por essas diversas restrições, a Lei israelita bem dava a entender quão pouco desejável é o divórcio numa sociedade que tenda à perfeição, chamada a ser o povo de Deus. Na plenitude dos tempos, as restrições cederiam à proibição formal (cf. Mt 19, 3-9).

c) ulteriores aspectos

Por fim, ainda parece oportuno observar:

Ao lado dos casos de poligamia, concubinato e divórcio reconhecidos pela Lei, houve, sem dúvida, na história sagrada, episódios que em hipótese alguma poderiam ser justificados; a fraqueza humana neles se manifestou, constituindo, como dissemos, o fundo negro sobre o qual mais havia de sobressair a graça da Redenção.

Tais episódios são entre outros:

O pecado de Onã (donde o nome do vício “onanismo”), que Deus puniu severamente, como refere Gn 38, 6-10;

O atentado incestuoso dos sodomitas, que foi devidamente castigado, conforme Gs 19, 1-25;

A conduta licenciosa de Salomão, que acarretou, como punição, o cisma do reino deste monarca (cf. 1Rs 11, 1-13, 29-33). De resto, a Lei admoestava particularmente o rei contra os abusos da poligamia (cf. Dt 17,17);

O feito das duas filhas de Lote, relatado em Gn 19, 30-38, poderia ser também julgado culpa grave, sem causar maior surpresa do que os episódios anteriores; as duas jovens teriam tido cópula carnal com seu pai! Apenas seria de notar que a narrativa faz de Lote uma vítima inconsciente, ludibriada, a quem não se pode imputar culpa no caso.29

Os exegetas recentes, porém, são inclinados a crer que o trecho refere não uma história real, mas o que se chama “uma narrativa etiológica”, 29a cujo significado seria o seguinte: os moabitas e os amonitas eram povos vizinhos que, tendo-se oposto aos hebreus por ocasião do êxodo, haviam incorrido no ódio e no desprezo destes (cf. Dt 23, 3-7; Jr 48, 26; Ez 25, 1-11). Ora, para exprimir a animosidade, Ter-se-ia formado em Israel uma narrativa fictícia: “Moab” (mê-ab) podia, conforme a etimologia, significar “Ele é do meu pai”, “Amon” (bem-ammi) seria “Filho do meu pai”. Pois bem, estes nomes no decorrer do tempo haveriam sido apresentados pela tradição israelita como os sinais de atos pecaminosos que teriam dado origem aos dois povos: duas filhas haveriam, sim, concebido de seu pai Lote, e gerado os homens a quem teriam imposto os nomes adequados” Ele é do meu pai” (Moab), “Filho do meu pai” (amon)30 Destes varões eram ditas proceder as duas nações inimigas ferrenhas de Israel, as quais assim ficavam bem caracterizadas como oriundas do pecado, impuras, gente com a qual não se podia ter amizade.31 A narrativa, portanto, exprimiria uma “história” imaginada para depreciar amonitas e moabitas. Eis como o Pe. Lagrange resume as razções que o levam a adotar esta explicação:

“O autor certamente não acreditava na historicidade do episódio, ... quando narrava a origem incestuosa de Moab e Amon. A ironia é tão acerba, os trocadilhos tão artificiosos e cruéis que a tradição sabia muito bem como os devia entender; S. Jerônimo dizia dos rabinos do seu tempo, sem contra eles protestar: “Assinalam o trecho com pontinhos, para indicar que não merece fé”. Abstração feita da finalidade do pontilhado, o sentido exégético é muito exato: uma sátira não é história”.32

A interpretação assim concebida não é incompatível com a inspiração do texto sagrado. Com efeito, o hagiógrafo pode Ter consignado no livros do Gênesis tradições populares, cujo significado era conhecido entre os judeus; inserindo o episódio de Gen 19, 30-38, o autor não fazia senão exprimir, nos termos mesmos em que isto se costumava fazer em Israel, a animosidade existente entre o seu povo e os adversários do seu povo. Não queria de modo nenhum apresentar como históricos os traços que não eram tidos como tais pela gente que os referia.

§ 5º MENTIRA E FRAUDE

A moral cristã ensina que jamais é lícito dar a entender o contrário do que se julga ser verdade, com a intenção de enganar o próximo. Todavia, esta norma, por depender de grande pureza de consciência, não era de todo clara aos homens anteriores a Cristo (nem aos pagãos nem aos israelitas), nem foi evidente a todos os cristãos desde o início da nossa era.33 Não é, pois, de admirar que na Sagrada Escritura se achem relatados casos de mentira até de homens e mulheres piedosos. Já que uma ou outra dessas históricas se torna, por vezes, motivo de debates, analisar-se-ão abaixo alguns episódios clássicos.

a) a fraudulência do Patriarca Jacó

Jacó, filho de Isaque, tem um nome que, segundo a etimologia popular hebraica (cf. Gn 27,36), é autêntico oráculo: o Suplantador.

Esta designação, de fato, o caracteriza na história sagrada.

Já ao nascer, saiu do seio materno segurando o calcanhar de irmão gêmeo Esaú, que o precedia e que, por isto, teria todos os direitos de filho mais velho (cf. Gn 25, 24-26).34 De resto, quando ainda gestava os dois gêmeos, Rebeca sentira que colidiam entre si no ventre materno, e fora por Deus advertida de que tal luta se prolongaria no decurso de sua vida, sendo que o mais velho acabaria por servir ao mais jovem (cf. 25, 22s).

Mais tarde, Jacó aproveitou-se da fadiga de seu irmão que voltava da caça e, em troca de um prato de lentilhas oportunamente oferecido a Esaú, comprou para si os direitos de primogênito (cf. 25, 29-34).

Antes da morte de Isaque, Jacó – de resto, instigado por sua mãe Rebeca – se apresentou ao pai débil e cego, dando-lhe a entender que era o filho mais velho Esaú; assim conseguiu enganar o pai e usurpar para si a bênção e primogênito, que o constituía herdeiro não somente dos haveres paternos, mas também das promessas divinas referentes ao povo do Messias (cf. 27, 1-45).

Após estas vitórias fraudulentas, Jacó se foi para a Mesopotâmia a fim de escolher esposa na família de seus ancestrais. Tendo-se fixado em casa de seu tio Labã, optou por Raquel, filha deste; todavia, só conseguiu obter o assentimento definitivo de Labã após haver sido explorado por este, prestando-lhe quatorze anos de serviço agrícola e pastoril (cf. 29, 1-30). Antes, porém, de regressar à sua terra com a família já constituída, Jacó se quis indenizar dos trabalhos que lhe foram extorquidos: aceitando uma oferta de Labã, resolveu levar consigo parte do gado de seu tio, parte aparentemente modesta, a saber: os cordeiros negros e as cabras malhadas que, para o futuro, nasceriam dos carneiros brancos e das cabras negras ou escuras de Labã (este, e não aquele, é o tipo normal e mais freqüente do gado). Todavia a modéstia de Jacó era ilusória: o “Suplantador” soube usar de um artifício habitual entre os criadores de gado primitivos, para que os carneiros brancos e as cabras não malhadas gerassem prole respectivamente negra e malhada, a qual lhe pertenceria.35 Assim Jacó se tornou rico à custa alheia (cf. 30, 25-43).

Ora foi esse homem tão fraudulento que Deus abençoou ... Em vez de a repreender, dir-se-ia que o Senhor confirmou a violação de direitos que Jacó cometeu em sua vida.

Como se há de entender essa história ?

Uma fase posterior da existência de Jacó nos leva à reta interpretação:

O hagiógrafo em Gn 32, 23-32 narra que, na caminhada de volta à Palestina, o Patriarca certa noite lutou contra um personagem misterioso que lhe aparecera; finalmente, o desconhecido confessou-se impotente, mas ainda quis tocar o nervo da anca de Jacó, tornando-o coxo; a seguir, pediu ao Patriarca que o deixasse partir. O “Suplantador” rogou-lhe então a bênção como condição para que o libertasse; em resposta, o estranho adversário não somente lhe deu a bênção, mas também mudou-lhe o nome de Jacó para “Israel” (= Forte contra Deus), “pois, dizia, foste forte contra Deus; também dos homens hás de triunfar” (v. 29).

A narrativa é certamente obscura. O profeta Oséias, 12, 4s., identifica o lutador anônimo com um anjo, até mesmo com Deus – o que contribui para tornar mais enigmático o cenário de Gn 32. O resultado da luta também é ambíguo; quem terá vencido ? Notemos que o estranho personagem fez as vezes de mais fraco, pedindo ser libertado, mas não deixou de se mostrar superior, mutilando Jacó, dando-lhe a bênção desejada (coisa que só em nome de Deus poder dada) e impondo-lhe novo nome (que era um oráculo profético). Que significa isso tudo ?

Os estudiosos contemporâneos dão ao trecho um sentido muito mais nobre e espiritual do que o que, à primeira vista, se lhe poderia atribuir. Ei-lo:

O hagiógrafo ou a tradição israelita teriam recorrido à imagem antropomórfica muito viva para designar uma luta que se passou não fora de Jacó, mas estritamente na consciência deste. O “Suplantador”, dizem, depois de várias fraudes, via-se de regresso à casa, sabendo que seu irmão Esaú lhe ia ao encontro com quatrocentos homens; o perigo de morte que então enfrentava o fez cair em si; tomando consciência dos atos injustos que cometera, julgou ter chegado a hora de sofrer o castigo de Deus; o abatimento a que este pensamento o reduziu eqüivalia para ele a uma agonia ou luta. O Patriarca, porém, não morreu nessa crise; ao contrário, conseguir sair da depressão ... Com efeito, o Senhor lhe deu a saber que o pouparia, embora o pudesse “derrotar”; não o amaldiçoaria, mas, ao contrário, daí por diante, o tornaria “divinamente” forte contra os homens )= “Israel”, ou seja, o portador das inabaláveis promessas e bênçãos messiânicas; Jacó, para o futuro, não seria o “Suplantador” que vence por meios fraudulentos, mas aquele que sabe contar com o auxílio de Deus mais do que com a própria habilidade. O defeito deixado na coxa de Israel lembrar-lhe-ia a “impotência” do seu poder humano e a “prepotência” de Deus, que liberalmente outorga a vitória ao indivíduo que Ele escolhe. É o que delicadamente insinua Sb 10,12:

“A Sabedoria outorgou-lhe (a Jacó) o prêmio em árduo combate, a fim de que ele reconhecesse que a piedade é mais poderosa do que tudo”.

A luta misteriosa de Jacó significa, portanto, uma dobra na vida do Patriarca: de conquistador trapaceiro e turbulento, ele havia de se tornar o triunfador abençoado, alheio às maquinações ilícitas e confiante em Deus só.36

O valor destas explicações não impede ainda que se pergunte: mas por que terá Deus escolhido tal varão para colocá-lo à frente do povo messiânico, na linhagem dos grandes precursores de Cristo ? Não será isto uma insinuação de que a fraude ainda hoje poderia ser abençoada ?

O Senhor quis escolher o “Suplantador” para ensinar aos homens que os dons divinos são absolutamente gratuitos; não é a criatura que, por seus títulos naturais, suscita a munificência divina; esta se atua também sobre os que nada de meritório têm, pois a graça pode fazer dos iníquos os justos que sirvam a uma obra perfeita. O Senhor, portanto, queria escolher, dentre os dois filhos de Isaque, o mais destituído de qualidades, ou seja, o mais jovem, propenso a suplantar fraudulentamente. Mas nem por isto violentou a personalidade humana de Jacó; deixou que se afirmasse com liberdade, para finalmente envolver mesmo a miséria de tal homem dentro da obra da Redenção; a bondade de Deus triunfou em Jacó, como triunfou em outros varões indignos, herdeiros da promessa messiânica, de sorte que foi pelos miseráveis que Deus quis libertar da miséria a criatura.37 Esta afirmação, porém, de modo nenhum implica que ao homem seja lícito agir contra a consciência ou fraudulentamente, alegando que Deus salva os pecadores.

O Senhor salva, sim, mas não “tem obrigação” de o fazer; salva segundo um plano muito belo e harmonioso, a nós desconhecido (cf. Rm 9,15s); por isto ninguém presumirá abusar da Misericórdia, lançando-se voluntariamente num abismo de que não se pode retirar por suas próprias forças. Para o homem, portanto, fica sendo única norma inabalável: cumprir em todo tempo a Vontade de Deus tal como a consciência a manifesta.

b) Judite, Aod e Jael :

A amabilidade a serviço do morticínio ...

O livro de Judite nos apresenta a história de uma viúva israelita que, pela astúcia, salvou a sua cidade, Betúlia, assediada pelo General assírio Holofernes. Quando os seus concidadãos já perdiam à confiança no auxílio divino, Judite revestiu-se dos ornamentos mais valiosos e, dada a sua beleza, conseguiu entrar no acampamento inimigo; apresentou-se ao General como a desertora que lhe havia de denunciar os segredos aptos para captar Israel; Holofernes acolheu-a com carinho e, após alguns dias, excitado pela paixão, ofereceu-lhe uma ceia, durante a qual se embriagou; a alta noite, deixada a sós na tenda com o General adormecido, Judite aproveitou a ocasião para decepá-lo. A seguir, alegando às sentinelas que ia rezar fora do acampamento, voltou para Betúlia, onde estimulou a sua gente ao ataque; este foi vitorioso para Israel, pois o pânico se apoderara dos assírios estupefatos.

Em poucas palavras, Judite parecer ter enganado; a seguir, matou. E o Senhor ..., em vez de a punir, abençoou-a, dando-lhe pleno êxito. Que significa isto ?

Para aproximar-nos da reta interpretação, recordemo-nos de que estamos diante de um episódio das guerras de Israel, as quais, na Sagrada Escritura, tomam o significado de luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás, entre a luz e as trevas; são combates, pois, em que todo o fervor religioso se acha empenhado e, o que não é para desprezar, fervor de orientais exuberantes e rudes.

Nessa luta, eis que Judite foi ambígua em suas atitudes e palavras. Fez o papel de fugitiva; procurou seduzir por sua beleza feminina e suas expressões de duplo sentido (note-se: dando a entender a Holofernes que denunciaria os segredos da derrota de Israel, não mentiu, pois, de fato, disse ao General que somente a apostasia religiosa seria capaz de prostrar aquele povo – o que era verdade; cf. 11, 1-12, Holofernes, porém, entendeu que lhe seriam revelados segredos estratégicos). Procedimento e declarações como os de Judite em tempo de guerra são por si mesmos suspeitos; não enganam senão os imperitos ou os obcecados, como Holofernes; se este não estivera detido pela concupiscência, poderia ter desconfiado de um ardil de guerra; ora os estratagemas jamais foram condenados entre beligerantes.

Observe-se, outrosssim, que Judite procedeu depois de ter orado e várias vezes pedido ao Senhor que abençoasse o seu empreendimento (cf. 9, 1-14; 12, 5-9; 13, 6s); não teve, pois, consciência de ofender a Deus; ao contrário, era impelida pelo zelo religioso que a vida continente e piedosa nela havia acendido. A sua consciência é assim isenta de culpa subjetiva. Deus quis dar pleno êxito à tarefa de Judite ... O que o Senhor assim sancionou não foi tanto o modo de agir da heroína; o expediente a que esta recorreu era condicionado pelos costumes bélicos da época. O que o Senhor houve por bem confirmar em Judite e propor a todos os homens (também aos cristãos) é a fé dessa mulher, que continuou a crer no auxílio divino quando os concidadãos já perdiam todo o entusiasmo teocrático. Deus recompensa a fidelidade, e serve-se dos humildes, piedosos (Judite) para prostrar os soberbos e ímpios (Holofernes e seu exército); eis a tese perene que o livro de Judite nos comunica através de seus dizeres circunstanciados pela mentalidade de uma época !

O feito de Judite tinha dois precedentes semelhantes nos primórdios de Israel (época dos Juizes, 1160-1020 a.C.):

O Juiz ou chefe israelita Aod, tendo ido certa vez pagar o tributo a Eglon, rei de Moab, que oprimia o povo de Deus, alegou Ter um oráculo de Deus a transmitir ao monarca. Deixado então a sós com Eglon, tirou de sob o manto uma espada que trazia oculta e, enfiando-lha na carne, matou-o desapiedadamente (Jz 3, 15-22).

Jael, mulher cinéia, estrangeira aliada a Israel, recebeu em sua tenda o chefe cananeu Sisará, que fugia derrotado em guerra pelos israelitas; mostrou-se disposta a ocultá-lo, a fim de que não fosse capturado pelos vencedores. Fê-lo, pois, deitar-se a recobriu-o cuidadosamente; a seguir, tendo Sisará adormecido, com um martelo enfiou-lhe nas têmporas um piquete, que lhe perfurou por completo o crânio e o deixou morto, fixo ao solo (Jz 4, 17-22).

Difícil será proferir um juízo sobre a moralidade desses atos. À diferença do que se dá no livro de Judite, o texto sagrado de modo nenhum insinua que tenham sido inspirados por Deus ou feitos após oração ao Senhor. Pode Ter havido culpa em Aod e Jael ... Não é isto o que o Autor Sagrado quer julgar quando relata os dois episódios; ele os narra com toda a objetividade, não para os propor como norma, mas para mostrar como Deus, permitindo que a natureza humana atue os seus instintos, sabe, não obstante, fazê-la cooperar para a realização de um plano sábio; 38 mais uma vez, a Escritura dá a ver que a própria imperfeição do homem, no plano do Criador, pode ser aproveitada para comunicar benefícios divinos. Eis o que os episódios de Aod e Jael devem significar para o leitor moderno.

§ 6º PUREZA E IMPUREZA RITUAL

A Lei mosaica enumerava longa série de atos e ocasiões que tornavam o homem “impuro”, impuro, porém, do ponto de vista meramente legal, extrínseco, sem que contraísse necessariamente alguma culpa em consciência. Assim, por exemplo, era considerado imundo quem comesse ou simplesmente tocasse certos animais -–a lebre, o porco, a águia, a avestruz, o cisne ... (cf. Lv. 11, 1-47), quem tocasse objetos julgados impuros (cf. Lv 11,44s,; 20, 25s), quem fosse acometido por lepra (cf. Lv 13, 1-14, 57), gonorréia (cf. Lv 15, 1-17), hemorragia crônica (cf. Lv 15, 25-30); impuros eram também os cônjuges após o ato conjugal (cf. Lv. 15, 18), a mulher após o parto (cf. Lv 12, 1-8). O impuro não era reabilitado senão após um ou mais dias, devendo finalmente sujeitar-se a um ritual de purificação (banho, oferta de sacrifício ...).

Quem lê essas minuciosas prescrições do mosaísmo concebe sem demora duas questões importantes:

1. As leis de pureza e impureza ritual têm seus paralelos em cultos pagãos da antigüidade e dos nossos tempos. Onde está, pois, a originalidade da religião judaica ? Como é então revelada por Deus ?

2. Abstração feita da origem dos preceitos de pureza legal, não será que a pureza ou a santidade inculcada pelo Antigo Testamento era algo de meramente exterior, ritual, independente da vontade e da pureza interior, moral ? Havia no mosaísmo um autêntico conceito de santidade ?

O termo hebraico qodesh (santidade) implica a idéia de separação; daí concluírem alguns autores que a santidade originariamente para os judeus significava pureza de ordem física, ou simplesmente limpeza; assim, por exemplo, escrevia Renan:

“As idéias de pureza e impureza eram a princípio equivalentes às de limpeza e sujeita ... A higiene e a limpeza foram uma das principais preocupações dos antigos legisladores”, Histoire du peuple d’Israel, IV (Paris), 55s.

Certas leis que visavam a garantir a saúde pública teriam sido sancionadas em nome da religião pela autoridade competente, a fim de se assegurar mais eficazmente a sua fiel observância (em regiões de clima quente, como as que habitavam os antigos semitas, era rigorosamente necessário que o povo rude ou infantil não negligenciasse certas cautelas de higiene!).

Eis a resposta global que se há de dar a essas duas questões:

É inegável que muitas das prescrições mosaicas concernentes à pureza exterior são análogas às de povos pagãos antigos e modernos. Observa-se, porém, em todas as tribos primitivas que tais normas não têm significado meramente higiênico, utilidade medicinal apenas, mas geralmente possuem valor religioso. Com efeito, não se poderia assinalar para cada qual dessas determinações uma causa respectiva, de ordem unicamente natural ou fisiológica; não, elas muitas vezes só se explicam por motivos religiosos ou “místicos”, isto é, porque os homens julgavam haver nexo especial entre tal objeto ou tal animal, tal doença ou tal função fisiológica, e determinada divindade;39 era, pois, o respeito à Divindade que de maneira geral ditava tais observâncias de caráter aparentemente profano. Ora o povo de Israel, oriundo do ambiente pagão da Mesopotâmia, desde as suas origens, ou seja, desde os tempos de Abraão (ca. De 1800 a.C.), conheceu usos de pureza e impureza legal; os seus antepassados caldeus os observavam.

Retirando-o da terra idólatra e constituindo-o como nação independente, agraciada pela revelação da verdadeira fé, Deus não quis simplesmente extirpar as observâncias tradicionais da gente de Abraão; a pedagogia divina sempre teve por tática tomar o homem como ele é, e pacientemente elevá-lo a maior perfeição. Por conseguinte, quando em 1240 Moisés, em nome de Deus, promulgou a Magna Carta de Israel, incluiu nela as prescrições rituais já vigentes em sua nação. Apenas tratou de incutir espírito novo, significado superior, a tais observâncias; removendo tudo que poderia Ter saber de superstição dou de algum modo lembrar a idolatria, procurou fazer desses usos o estímulo para que os israelitas, observando uma pureza exterior, ritual, se tornassem outrossim ciosos da fidelidade a Deus, ou seja, de pureza moral, interior (muito mais importante!): “Vós vos santificareis e sereis santos, porque sou santo, e não vos tornareis impuros” (Lv 11,44).

Como se vê, a fim de alçar o homem ao ideal de imitar a Deus, o Legislador, no Antigo Testamento, quis partir das observâncias imperfeitas a que o semita estava habituado; inseriu-as, porém, dentro da seguinte perspectiva:

I(nexo necessário, até hoje válido)

DEUS É SANTO; POR ISTO,
O SEU POVO DEVE SER SANTO.

II (nexo contigente, ab-rogado desde que o genêro humano foi dotado de conciência Moral mais perfeita)

E, PARA QUE SEJA SANTO, OBSERVE
EM ESPÍRITO MONOTEÍSTA AS NORMAS
DE PUREZA TRADICIONAIS.

É preciso acrescentar que, além do significado acima exposto, as proibições relativas a animais e objetos impuros visavam criar uma barreira entre o povo de Deus e estrangeiros (cananeus, mesopotâmios, gregos e romanos) com que Israel se havia de encontrar no decorrer da história; justamente a necessidade de não contrair impureza ritual, exterior, fez com que Israel não se tenha mesclado com as nações pagãs, nem quando estava disseminado no exílio (587-539 a.C.), nem quando a terra santa foi ocupada pelos helenistas no tempo dos Macabeus (165-134 a.C.). Assim as prescrições rituais, impondo distância do paganismo, preservavam a verdadeira fé, ajudavam o judaísmo a realizar sua missão religiosa.

Note-se ainda o seguinte: é sentença aceita por muitos exegetas que em Israel a condenação de alguns animais como impuros (o camelo, o porco, a lebre, o cavalo, o asno, o cão) se deve em parte a uma reação contra o culto dos mesmos nos povos vizinhos de Israel. Os semitas associavam tradicionalmente os “gênios” do deserto, potências superiores (seirim, sedim, Azazel, siyyim), com certas espécies de animais.

O fato de que o israelita, por tradição de seus antenatos semitas, admitia certos atos e estados de impureza legal, extrínseca, destituída de culpa moral intrínseca, influiu no conceito de pecado que o povo de Deus nutriu até os tempos de Cristo. Vivendo sempre de sobreaviso contra as possíveis contaminações por doenças ou contrato de animais ou objetos impuros, os hebreus, depois de ter recebido a Lei mosaica com seus preceitos morais, eram propensos a analisar, nas transgressões da Lei, mais o ato exterior do que a intenção do transgressor; não davam grande atenção ao que propriamente caracteriza o pecado: a desobediência de uma personalidade contra um Deus pessoal (cf. págs. 180s).

Como quer que seja, os interditos meramente rituais, legais, iam do seu modo contribuindo para inculcar ao povo de Israel o conceito de transcendência divina ou a idéia de que Deus por si é alheio a muita coisa familiar ao homem pecador. Com o tempo, porém, ao se apurar a mentalidade filosófica de Israel, os hebreus foram concebendo mais exatamente o caráter pessoal e sumamente moral da religião; perceberam então melhor o significado meramente pedagógico, secundário, de tais proibições.41

A título de complemento, seguem-se breves observações sobre as principais teorias que se propõem elucidar a origem das leis de pureza legal:



1. O motivo de higiene, embora possa estar na origem de muitas dessas normas, não é suficiente por si só para explicar todas as proibições rituais. Com efeito, embora possa justificar a proibição da carne de porco, não justifica a do cavalo, a do asno, a da lebre ...; os árabes antigos e modernos sempre comeram carne de camelo, de avestruz, que a Lei mosaica proíbe; os beduínos do deserto da Síria comiam camundongos, também vedados aos hebreus.

2. Também não basta apelar para a repugnância que a carne dos animais proibidos suscita ao paladar. A águia, o abutre, vedados por Moisés, talvez causem repulsa, por se alimentarem de cadáveres; mas o paladar ou os gostos são algo de bem relativo; o profeta Isaías (66,17) via-se obrigado a anunciar graves castigos àqueles que se deleitavam em comer carne de porco, camundongos e manjares abomináveis!...

3. Quanto aos motivos de tabu e totemismo, são opostos à medula da Lei mosaica, a qual apregoa estrito monoteísmo, um só Deus, e um Deus que não tolera ser representado por imagens alguma, seja de homem, seja de animal.

Destas considerações se percebe que só por um concurso de fatores diversos se explicam cabalmente os preceitos de pureza legal vigentes entre os povos primitivos. Talvez com o decorrer dos tempos os homens tenham perdido a consciência clara do motivo por que observavam a maioria desses usos.

§ 7º A ESCRAVATURA

Após tudo que foi dito sobre a mentalidade dos antigos orientais e de Israel, já não causa surpresa verificar que esteve em vigor neste povo a escravatura.

A Lei de Moisés, embora não tenha abolido praxe tão comum e duradoura entre as nações, assegurou, ao menos aos escravos israleitas,42 tratamento assaz brando, tratamento que, em confronto com o de outras legislações, podia ser equiparado ao de um doméstico ou mercenário (cf. Lv 25, 39s).

Era geralmente a pobreza, a falta de recursos para pagar as dívidas, que motivava a escravidão em Israel: o devedor indenizava o credor dando-lhe o seu trabalho e quase a sua personalidade. Todavia, após seis anos de serviço não remunerado e castigos infligidos segundo o arbítrio do patrão, o escravo israelita possuía o direito de ser restituído à liberdade (cf. Êx. 21, 2s). Emancipando-o, o senhor tinha obrigação de lhe fornecer um pouco de gado e produtos agrícolas, a fim de que pudesse viver até encontrar um ganha-pão próprio (cf. Dt 15, 12-15).

Caso no período dos seis anos de servidão se registrasse um ano de jubileu (todo ano qüinquagésimo, ano de renovação, de perdão geral, restauração de tudo à ordem inicial), o escravo recuperaria então a liberdade. A Lei previa o caso de que um escravo, sentindo-se bem em casa do patrão, não quisesse fazer uso do direito de voltar ao estado livre (cf. Êx. 21, 5s.; Dt 15,16s), o que é indício de que realmente vigorava notável senso humanitário entre os patrões israelitas.

Os escravos usufruíam do repouso do Sábado (cf. Êx. 20,10) e participavam das festas prescritas pela Lei (cf. Êx. 12,44; Dt 12, 12,18; 16, 11,14).

Como se depreende, a Revelação divina contribuía poderosamente para mitigar a sorte dos servos israelitas. Quanto ao fundamento sobre o qual a Lei mosaica estabelecia essas normas, era não simples filantropia, mas explicitamente a crença religiosa de Israel: a Torá lembrava, sim, a todos os filhos de Abraão que haviam sido escravos no Egito, tendo-os Javé resgatado para que todos fossem libertos de Deus (cf. Lv 25, 42s.; Dt 15,15); o exemplo da Benevolência divina era assim incutido como norma que, caso fosse coerentemente interpretada, induziria a abolição da escravatura em Israel (de resto, o exemplar da Benignidade de Deus para com seu povo mais de uma vez era evocada pela Lei para abrandar os costumes dos hebreus) (cf. Lv 23, 31-33; 24, 43; 25, 38, 55; 26,12).

1. Talio, talionis, é substantivo derivado do adjetivo talis, tal.

2. Êx. 21, 23-25. Trechos semelhantes ocorrem em Lv 24, 17-21, Dt 19, 21; Êx. 21, 12-14.

3. Eis, por exemplo, como reza a Lei Romana das XII Tábuas:

“Si membrum rupit, ni cum e o pacit, talio esto. Sofra o talião aquele que tiver fraturado um membro (alheio), a menos que haja (outro) entendimento”.

4. É o que atesta, por exemplo, o historiador judeu Flávio José no séc. I da nossa era: “Aquele que mutilar o próximo padecerá pena idêntica, sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo. Dado, porém, que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária, a lei lhe reconhece o pleno direito de avaliar a perda sofrida, e autoriza-a a proceder assim, caso tema cometer alguma crueldade”. (Ant. IV, 8,35)

Cf. o tratado rabínico Mishna, Babba Quamma VIII, 1,5.

5. As palavras de Jesus acima citadas de modo nenhum implicam que à justiça cristã não seja lícito aplicar penas aos réus comprovados. Estas, porém, hão de ser avaliadas segundo o grau de responsabilidade moral do delinqüente, não unicamente segundo o dano material que o réu haja produzido.

6. Herém, em sua acepção original semítica, significa algo de “separado, interditado” ou, na linguagem religiosa, subtraído ao uso profano, reservado para Deus. Podia haver um herém de santidade; determinado objeto era então oferecido ao serviço de Deus por uma consagração irrevogável (cf. Lv 27, 28s; Mq 4,13). Havia igualmente um herém de maldição ou anátema: certa pessoa ou coisa, abominável aos olhos de Deus, era destruída em afirmação da santidade e da justiça de Deus. Esta imolação não era um sacrifício propriamente dito, pois não consistia no oferecimento de algo de agradável a Deus.

A mesma raiz semita deu a palavra harim, o harém dos orientais, apartamento secreto das mulheres.

7. Annales, 13,57.

Eis mais alguns exemplos de prática do herém fora de Israel; Os címbrios e os teutônios, depois de insigne vitória sobre o cônsul romano Manílio, inutilizaram toda a presa capturada: as vestes dos inimigos foram rasgadas e atiradas ao vento, o ouro e a prata lançados ao rio, os cavalos precipitados em desfiladeiros, o equipamento dos homens destruído em mil pedações (cf. Orósio, Historiarum liber 5,16).

Os ligúrios fizeram algo de semelhante em 176 a.C., esquartejando os prisioneiros, matando os animais, quebrando contra as muralhas vasos de diversos tipos, em suma aniquilando os despojos consideráveis de que se haviam apropriado em Módena.

Os gauleses queimavam a presa ou atiravam-na nos lagos.

Entre numerosíssimos objetos de bronze escavados nas turfeiras da Dinamarca não se encontrou um só intacto, podendo servir ulteriormente, nenhuma arma que não tivesse sido quebrada.

Descobriu-se mesmo uma inscrição de Mesa, rei de Moab, referente à batalha que ele travou vitoriosamente contra Joram, rei de Israel (852-846 a.C.), batalha mencionada em 2Rs3, 4-17: “... E Camos me disse: “Vai, toma Nebo combatendo contra Israel”. Fui-me de noite e combati contra ele, desde o despontar da aurora até o meio-dia; tomei-o, matei tudo; sete mil homens e crianças e mulheres e donzelas e servas, pois eu os devotara ao anátema em honra de Astar-Camos, e apreendi os objetos de Javé e os levei à presença de Camos”.

Notícias colhidas do artigo de F.M. Abel “L’anathème de Jéricho et la maison de Rahab, em Revue biblique, 57 (1950), 323s.

8. A própria Sagrada Escritura dá testemunho de quanto esse uso era freqüente entre os pagãos (cf. 2Cr 32, 14; Is 37, 11; 2Rs 14,11).

9. Assim os madianitas induziram Israel à luxúria e à idolatria durante a travessia do deserto (cf. Nm, 25, Is; 31, 16); os cananeus não exterminados contaminaram freqüentemente o povo de Deus por ocasião da ocupação da Terra Santa (cf. Sl 105, 28s, 34-38 e o quadro da história dos Juízes em Jz 2, 10-19).

10. Muito a propósito vêm as observações de A.Clamer, La Sainte Bible, II (Paris, 1946), 563): “Moisés, embora tivesse de Deus e da religião conceitos muito superiores aos de seus contemporâneos, não deixava de sofrer a influência do ambiente, de sorte que em vários pontos ele seguia o modo de ver dos eu tempo, não recusando diante da violência mesmo sangrenta, quando a sua obra de chefe do povo estivesse em jogo ou desde que se tratasse de assegurar a salvação de Israel, povo de Javé. Já que ele via, não sem razão, no paganismo cananeu o mais grave perigo ao qual estava exposta salvação, não hesitava em recorrer às leis de guerra vigentes outrora e assim exterminar os cananeus e os outros habitantes da terra, a fim de conjurar o dito perigo. Deus, tendo confiado a Moisés a chefia do seu povo, permitia ... tal procedimento”.

11. Assim, ao caminhar com a arca do Senhor e o povo pelo deserto, exclamava Moisés: “Levantai-vos, Senhor, e que os vossos inimigos sejam dispersos! Fujam diante de vossa face aqueles que vos odeiam!” (Nm 10,35).

Conforme 1Sm 30,26, “de volta a Siceleg, Davi enviou parte da presa (dos amalecitas) aos anciãos de Judá, seus amigos, dizendo: “Eis um presente para vós, proveniente da presa dos inimigos de Javé”.

12. Os israelitas tinham uma concepção do universo e da história estritamente religiosa, assim como uma linguagem muito menos matizada ou filosófica do que a nossa. Por isto não costumavam distinguir entre o que Deus faz diretamente, o que Ele faz por causas segundas ou instrumentos e o que Ele apenas permite. Em conseqüência, os hagiógrafos atribuem diretamente a Javé os termos com que os chefes israelitas promulgavam a lei do herém segundo o costume vigente entre os antigos povos.

13. Foi o que o Senhor fez rejeitando o rei Saul, conforme 1Sm 15, 16-30; entregando freqüentemente os israelitas à opressão dos inimigos no tempo dos Juizes (cf. Jz 1, 21-33 e 2, 11-23).

14. Os monumentos e os textos assírios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedâneos para os pés dos monarcas etc. (cf. também Heródoto, IV, 159).

Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram o ventre de mulheres israelitas grávidas (cf. Am 1, 13; Os 14,1). O mesmo profeta descreve e condena as atrocidades patriarcas em guerra pelos sírios, os filisteus, os tírios, os edomitas, os amonitas, os moabitas (Am 1, 3-2, 3).

Eliseu prediz que os sírios há de esmagar as criancinhas e violar o ventre das mulheres grávidas de Israel (cf. 2Rs 8,12).

Sabe-se outrossim, por 2Rs25,7, que os babilônios estrangularam os filhos de Sedecias, rei de Judá, ao passo que a este Nabucodonosor mandou crivar os olhos, prender com duas correntes e deportar para a Babilônia (cf. Na 3,10).

Semelhantes costumes bélicos vigentes entre os persas são atestados por Is 13, 16-18. Os motivos que levavam os pagãos a praticar o herém provinham de uma religiosidade muito menos elevada que a israelita. Não raro pressupunham que os deuses se compraziam no extermínio dos homens como tal: Mesa, por exemplo, rei pagão de Moab, numa famosa inscrição (cf. nota 7 deste capítulo), afirma que, após a conquista da cidade de Cariataím, fez perecer toda a população que aí se encontrava, a fim de oferecer um espetáculo agradável a Camós, deus de Moab (linhas 11s).

15. Aliás, o simples fato de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis teocráticas devia concorrer para coibir eventual tendência dos chefes de Israel aos abusos, à violência irrefreada.

16. Cf. Dt 20, 20-18;

O modo de tratar as cidades cananéias seria outro, pois, estando localizadas na terra mesma que Israel devia habitar, a coexistência de cananeus pagãos com os israelitas fiéis oferecia grave perigo de contaminação pagã. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do herém ao vencer os cananeus, como inculca Dt 7, 2-5; 20, 15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel o preceito do herém era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que ele fora sancionado para o povo hebreu.

17. Indumentária de penitência.

18. Manifestações de tal mentalidade encontram-se não somente entre os semitas, mas também entre os gregos antigos: assim a totalidade dos troianos teve de pagar pelo malefício de Paris; Creso expiou o morticínio cometido por Gigés, seu antepassado em quinto grau; Eurípedes declarou que os deuses fazem redundar contra os descendentes os passos falsos dados pelos antenatos”. A mesma lei da solidariedade, a mentalidade do clã, é vigente ainda hoje em tribos orientais nômades.

Cf. E. Sellin, “Das Subjekt der altisraelitischen Religion”, em Neue kirchliche Zeitschrift, 4 (1893), 444; 3. De Fraine, “Individu et societé dans la religion de I’Ancien Testament”, em Bíblica, 33 (1952), 451s.

19. “Derramar o sangue de um membro da família é derramar o sangue do grupo, é atingir o corpo orgânico. Isto vale até em caso de suicídio e de aborto; mas vale principalmente em caso de morticínio... Tudo é comum: a injúria, o prejuízo, o dever e até o sangue; ainda em nossos tempos, em caso de homicídio, os árabes dizem : Nosso sangue foi derramado”. J. De Fraine, art. cit., 456. “Cada grupo entre os semitas constitui um só vivente, como uma única massa animada, formada de carne e osso, da qual parte nenhuma pode ser truncada sem que todos os membros sofram com isto. “R. Smith, Religion of the Semitics, 274, citado por A. Lods, La croyance à la vie future et le culte des morts dans I’antiquité israélite, II (Paris, 1906), 274.

20. De resto, o decálogo mesmo foi formulado em termos adaptados a essa mentalidade coletivista. Eis como se encerra o primeiro mandamento: “Sou o Senhor vosso Deus ... castigo a iniquidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até a milésima geração àqueles que me amam e observam meus mandamentos”. (Êx. 20, 5s).

21. É o que claramente transparece dos seguintes textos:

“À sombra das tuas asas agasalha-me contra os pecadores que me fazem violência. Contra os inimigos que, sedentos, me rodeiam” (Sl 16, 8s).

“Sejam confundidos e corem de vergonha os que procuram arrebatar-me a vida !... Exultem e alegrem-se em Ti todos os que Te procuram!” (Sl 39, 15,17)

“Ouvir-me-à e os humilhará Deus, que tem um trono eterno. Pois não há neles conversão, e não temem a Deus” (Sl 54,19s)

“Não entrarão em si, porventura, os que cometem iniqüidade. Os que devoram o meu povo assim como engolem pão, Os que não invocam a Deus?” (Sl 53,5)

22. Muito significativas são também as palavras que Labã proferiu quando se despediu de seu genro Jacó, a quem dera as duas filhas por esposas:

“Que o Senhor nos observe, a mim e a ti, quando nos tivermos separado! Se maltratares minhas filhas e tomares outras mulheres ao lado de minhas filhas, ... Deus será testemunha entre mim e ti”. (Gn 32, 49s).

23. Observa-se que, em Ez 23, 1-49 e Jr 3, 6-13, a imagem que deve indicar a realidade espiritual é a de um matrimônio bígamo: o esposo tem duas esposas irmãs. A exceção se explica pelo fato de que o hagiógrafo queria aludir não ao povo de Deus como tal, mas distintamente às duas partes em que o reino de Salomão se havia cindido; a figura da esposa única tinha então de ceder à das duas irmãs e esposadas ao mesmo verão, para que a metáfora correspondesse à realidade (cf. pág. 270, nº 14).

Ao matrimônio bígamo assim descrito não se pode atribuir valor de modelo, de mais a mais que a Lei mosaica explicitamente condenava a união de um varão com duas irmãs (cf. Lv 18, 18).

24. Homens retos e homens indignos de Israel foram polígamos. Assim: Abraão tinha Sara por esposa principal (Gn 12,5); ao lado dela, havia Agar, a escrava (Gn 16, 1), e concubinas (Gn 25,6). Jacó esposou Lia e Raquel, cada uma das quais o instigou a unir-se com uma escrava (Gn 29, 25-29; 30, 2,9).

Esaú teve três mulheres (Gn 36, 1s).

Elcaná, o pai de Samuel, teve duas esposas (1Sm 1,2).

O rei Davi tinha um harém numeroso (1Sm 18, 27; 25,39-43; 2Sm 3,2-5; 5,13;11,27).

Famoso foi o harém de Salomão (1Rs 11, 1-13).

25. Sabe-se que o número de mulheres que um proprietário oriental possuía era tido como indício de sua riqueza, de seu prestígio.

Por isto, os reis da Babilônia tinham nos respectivos haréns mulheres de condições variadas. O código legislativo do rei Hamurapi prevê, por exemplo, ao lado da esposa principal, a existência legal de uma concubina ou de uma escrava que a esposa apresentava ao marido (art. 144-146).

O mesmo se dava no Egito. O Faraó possuía numerosas mulheres, filhas de altos funcionários, ou estrangeiras, filhas de régulos submetidos ao Egito (as quais, por vezes, iam ter à corte na qualidade de reféns). Essas mulheres em maioria ficavam sendo concubinas; a algumas era dada a dignidade de “esposas régias”; uma só era feita “grande esposa” ou rainha.

26. Assim Raquel, estéril, fez com que Jacó se unisse a Balá, sua escrava (Gn 30,3s); da mesma forma procedeu Lia, apresentando a serva Zelfa a Jacó (Gn 30,9s). Dizia Raquel: “Que Balá dê à luz sobre os meus joelhos, e por ela terei também ou uma família!” (Gn 30,3). E, quando Balá gerou Dá, exclamou Raquel: “Deus me fez justiça; ouviu a minha voz e me deu um filho”. (Gn 30,6).

Não somente em Israel, mas também na antiga Caldéia, a mulher rica recebia de sua família, como dote de casamento, uma escrava, que ficaria à sua disposição para o resto da vida, e que não seria concubina. A patroa podia ceder o seu lugar à escrava nas relações com o marido, tornando-se então a prole da escrava propriedade da patroa. O Código de Hamurapi proibia ao marido tomar uma concubina, caso a escrava fosse fecunda: “Se um homem esposar uma mulher e se esta der ao marido uma escrava que procrie filhos, caso esse homens queira tomar uma concubina, não se lhe dará autorização para isto e ele não tomará concubina”. (Art. 144).

27. A impureza legal estava baseada em fenômenos fisiológicos (às vezes, doenças), sem implicar necessariamente culpa no indivíduo por ela afetado. Distingue-se bem da “impureza moral”, que o sujeito contrai por uma vontade inclinada ao mal, culpada.

28. La Sainte Bible, II (Paris, 1946), 102.

Analogamente se exprime H. Lesêtre, “Mariage”, em Dictionnaire de la Bible, VI (Paris, 1928), 763; “A Lei mosaica se adaptava aos costumes da época autorizando o divórcio e deixando em vigor a poligamia ... Estas concessões eram contrabalançadas pelos impedimentos matrimoniais de parentesco e pelas regras severas de pureza legal, que conservavam a idéia e a prática do matrimônio em certo nível moral e contrastavam com a licenciosidade tolerada por outros povos”.

29. Em 2Pd 2, 7s Lote é dito “o justo”.

29ª Em grego, aitia = causa: lógos = discurso. Etiologia = discurso que revela a causa.

30. Note-se como por três vezes é inculcado que as filhas de Lote conceberam de seu pai (vv. 32, 34,36). Esta insistência se explica bem pela intenção de dar uma interpretação pejorativa aos dois nomes.

31. Os hebreus abominavam o ato incestuoso que atribuíam às filhas de Lote (cf. Dt 27, 20,23; Lv 18, 6-8).

32. La méthode historique, 207. Com Lagrange concordam Clamer, La Sainte Bible, I (Paris, 1953), 297; J. Chaine, Le livre de la Genèse (Paris, 1949), 253.

33. Sabe-se que ainda no séc. V alguns autores cristãos julgavam lícita a mentira formal, desde que fosse proferida com a finalidade de promover o bem (cf. Cassiano, Collat, 17,17). Os teólogos católicos, porém, em breve repudiaram, e ainda hoje repudiam, mesmo tal espécie de mentira.

34. “Segurar o calcanhar” é bem o sinal de “suplantar”.

35. O processo utilizado por Jacó para obter cabras malhadas foi o seguinte: Quando os animais estavam para entrar em cópula, o Patriarca colocava diante de seus olhos varas de salgueiro, amendoeira, plátano, nas quais fizera incisões a fim de as tornar raladas ou listradas de branco; a visão desses ramos devia influenciar a formação do embrião, produzindo prole malhada (cf. Gn 30, 37-39).

O artifício estava muito em voga entre os antigos; julgavam, como ainda hoje freqüentemente pensa o nosso povo, que certos objetos avistados durante a concepção ou a gestação acarretavam notas próprias na prole. Vejam-se os testemunhos de Opiano. De venatione, I, 327s; Plínio, Hist. Nat., VII, 10; Hipócrates, segundo Sto. Agostinho. Quaest, in Heptat., I, 93; Isidoro de Sevilha, Etymologiarum, liber XII, I, 58-60. Nos tempos de S. Jerônimo (séc. V), dizia-se que os espanhóis por meio de tais artifícios sabiam variegar a cor de seus cavalos. Cf. S. Jerônimo, “Liber hebraicarum quaestionum” in Genesin, ed. Migne lat. 23, 985.

A ciência genética moderna, possuidora de mais exatos conhecimentos, talvez negue a possibilidade da influência natural de tais fatores sobre o processo generativo. Como quer que seja, o texto sagrado dá a entender que o artifício de Jacó se tornou eficiente por especial intervenção de Deus; esta terá sido, em última análise, a causa do êxito do processo que por si mesmo talvez fosse vão. O expediente usado por Jacó pode ter sido mera ocasião para que Deus o beneficiasse.

Note-se a ênfase com que o astuto varão, depois de obter o sucesso, inculca ter sido especialmente auxiliado por Deus.

“Vejo no rosto de vosso pai (Labã) que ele não me é favorável como antes, mas o Deus de meu pai esteve comigo ... Vosso pai burlou-se de mim e dez vezes que ele dizia: “A prole malhada será tua paga”, todos os animais davam à luz filhotes malhados; sempre que ele dizia: “A prole raiada será tua paga”, os animais geravam filhotes raiados; Deus tirou a vosso pai o gado e o deu a mim (31, 5, 7-9).

No v. 16 respondem Raquel e Lia: “Sim; toda a riqueza que Deus tirou de nosso pai pertence a nós e a nossos filhos”.

Estes versículos indicam a causa profunda de um fenômeno que vulgarmente se atribuía ao artifício utilizado por Jacó.

36. Eis o oportuno comentário de G. Ricciotti, Histoire d’Israel, I, 148s.; “Se se observam atentamente os traços com os quais a Bíblia nos apresenta o homem conhecido antes e depois da luta com Deus, verifica-se impressionante mudança. Jacó era o realizador inquieto e complicado; Israel será o triunfador enérgico e benévolo”.

37. A propósito se pode citar a observação do E. Joly, Aux sources bíblique (Paris, 1950), 41: “A luta de Jacó com o anjo não será a imagem de toda a nossa vida espiritual ? Lutamos contra Deus, resistimo-Lhe; ora é no momento em que somos vencidos por Deus e Lhe pedimos nos abençoe, que na verdade nos tornamos vencedores. Pode-se dizer também que Deus se quer deixar vencer por nossa oração”.

O mesmo autor cita o seguinte trecho e Paul Claudel, que narra a sua conversão: “Cette résistance a daré quatre ans. J’ose dire que je fis une belle défense et que la lutte fut loyale et complète ... Le combat spirituel est aussi brutal que la lutte d’hommes ... Je fus définitivement forcé, réduit.”

38. “Deus, que ainda não derramara a graça reservada para os tempos do Messias, pôde servir-se de Aod como de um salvador, da mesma forma como ser serviu de Eglon como de um flagelo, independentemente do valor moral dos seus atos”. Lagrange, Le livre des Juges (Paris, 1903), 61.

39. Os antigos julgaram ser cada doença causada no homem por um mau espírito; admitiam também a influência dos demônios no mistério da comunicação da vida ou da geração da prole (nem gregos e romanos eram alheios a essas crenças). Pensavam igualmente que certos animais são sagrados, relacionados com a Divindade ou com demônios, ou são a sede de potências “sobrenaturais” (são tabus, conforme o termo técnico oriundo da Polinésia). Falavam, outrossim, do animal totem (termo derivado da língua dos índios algonquins do México setentrional), ancestral com o qual tal família ou tribo se julgava aparentada e ao qual consequentemente dedicavam profunda veneração.

Hoje em dia, reconhecem os estudiosos que a crença nos tabus e nos totens não era nem tão generalizada, nem tão uniforme, nem tão religiosa, nem tão primitiva, como no fim do século passado asseveraram os historiadores.

40. Na Revelação cristã, a terceira proposição do esquema seria assim formulada:

E PARA QUE SEJA SANTO PRATIQUE O AMOR.

POIS DEUS É AMOR. (cf. 1Jo 4, 7-11).

41. Os interditos (de pureza ritual) não careciam de valor religioso, pois arraigavam nos corações a consciência da transcendência de Deus. Percebemos a elevada noção que tinham Davi e seus contemporâneos, do domínio absoluto de Javé. Tais leis, porém, cuja razão de ser já fora esquecida, facilmente davam ocasião a que os israelitas considerassem a Deus como senhor caprichoso e duro. Os interditos, cujo significado era desconhecido, tornavam-se usos sociais, meramente leigos, destituídos de eficácia religiosa ... Por isto foram sendo, aos poucos, transformados e eliminados mediante o aperfeiçoamento das noções religiosas do povo”. A. George, “Faustes contre Yasweh dans les livres de Samuel”, em Revue biblique, 53 (1946), 169.

42. Aos estrangeiros feitos servos de israelitas não se reconheciam as regalias enunciadas neste parágrafo (cf. Lv 25, 44-46).



Data Publicaçao: 11/01/2008




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